quinta-feira, 12 de junho de 2008

o crente

Contando os passos soltos, pé por pé, notando a cada brisa quebrada pelos veículos em ritmo constante naquela manhã, o quanto necessitava de tudo aquilo; toda a colméia humana era harmônica, pensou na blusa que vestia, e em todo seu percentual de algodão, alguém plantou aquele algodão, alguém o fiou, outro alguém traçou, cortou, costurou – mágica – a blusa com percentual em algodão estava em seu corpo – deliberou sobre sua calça, seu tênis e sobre todas as coisas e padrões delimitados por sabe-se quem, talvez por ele mesmo.

Dentre todos os apetrechos enganchados em seu corpo deu maior atenção a algo por baixo de sua blusa com percentual em agodão, escondido por lá havia um tipo de cartão em PVC, com algumas formas geométricas a figurá-lo, preenchendo um retângulo no canto superior direito havia seu rosto, abaixo um código de barras, e todas as formas e padrões se acotovelando naquele pequeno cartão; mais aterrorizante era constatar que tudo aquilo estava pendurado em seu pescoço estampando seu peito. Tentou não pensar a respeito, mas enfim, seu pensamento sempre o traia, ainda naquele cartão havia seu nome, que quando nascera foi cravado em um pedaço de papel que hoje dizem a ele ser a prova, sim, a prova de que ele mesmo existe, enfim, não basta estar vivo, necessitava estar catalogado, sistematizado e doutrinado - voltando ao cartão, já sabia seu nome, seu rosto, e até quando nascera, abaixo de seu nome, algo mais surpreendente, não era mais o nome que o identificava, mas sim uma função, um cargo – doutrinado, sistematizado, catalogado – retirou os óculos, esfregou os olhos, o passo continuava, o ritmo acelerava;

O cartão agora incomodava um pouco, seu material não parecia mais PVC, talvez o fosse mutável, afinal, o parecia mais denso e o pescoço ficava a curvar-se, o deixando um pouco corcunda até.

O que fazia? O que aconteceu com suas ideologias, o que aconteceu com o garoto que iria mudar o mundo?

O passo acelerado deu lugar a passadas largas, o coração ritmado batucava forte, correu, pulou uma poça, desviou de uma bicicleta, adentrou por um portão, girou a porta giratória, “tonteou-se”, retirou o cartão do peito, enfiou-lhe numa máquina, a mesma devolveu-lhe um apito, recostou-se sob a parede, respirou aliviado, era seu primeiro dia em seu primeiro novo emprego, estava exausto, mas chegara a tempo.

Bom dia; bom dia, bom dia – doutrinado, sistematizado, catalogado.

2 comentários:

Aline Sprite disse...

batatinha quando nasce, espalha rama pelo chão (:

vocejafoimaishumilde disse...

Vc esta parecendo um pouco incomodado nesse texto, para alguém que adora estereótipos. rs
Muito bom! Mesmo. A proposito li depois de escrever meu primeiro post..engraçado, os assuntos se misturam..rs
E sim, reparou no nome do blog, desde que vc deixou um scrap usando essa frase que eu já sabia que seria ela,ahaha
pronto, agora vc já sabe meu plano secreto, se quiser pode ir lá...
droga de blog que não aceita posts anônimos....ahahha
bjus!