Recostado sob o sofá estreito, com o pescoço a curvar-se, fazendo seu queixo quase que tocar o peito, sentia a orelha esquerda queimar um pouco ; outro final de semana, aquela mesma ligação de todos os finais de semana, era feliz com isto.
Dentre as milhares formas de identificação, sobre todos os novos velhos assuntos, as religiões, as fraudes intelectuais, a decadência, nós: os macacos, poderia ter abordado sobre qualquer tema, que sugerisse uma conversa longa e amistosa e voraz; a voz do outro lado da linha também o esperava, depois das sempre perguntas, “como vai? como anda o trabalho?” - viria o prazer dominical, antes poderia ser o buteco do fim de semana, o beijo, o sexo, as músicas, porém, de não menos valor, os domingos eram mais felizes com uma voz.
Respirou um pouco, ajeitou-se sobre o próprio corpo, esperou até a conclusão da última afirmação vinda do telefone e então:
-- Aos vinte e dois, o que esperava da vida? - Silêncio, talvez por dois ou três segundos, um tempo muito maior do que já havia esperado desta mesma voz, pensou que talvez teria tocado no ponto no qual, até ele mesmo ameaça se perder.
Breve silêncio, ouviu-se o som do coçar a garganta e então, pesadamente prosseguiu a voz:
-- Vinte e dois, então, aos vinte e dois e frise bem, aos vinte e dois anos, diante todos os questionamentos, todas as escolhas, todas as opções, todas as fugas, fiz apenas o que destinaram a mim, como que com rédeas eu apenas assenti aos comandos que me eram ordenados, os executei, maestralmente, a cada nota eu cavava e embora não tenha esquecido de mim mesmo, apenas me tornei uma anulação dentro de uma capa exteorizando milhares de razões enfáticas.
Três segundos, somaram-se seis então, o telefone se fez mais quente, tentou balbuciar algo, em vão, tentou respeitar o silêncio que ouvia, não pôde resistir, ameaçou quase uma pergunta, mas não houve necessidade.
Em claro tom, rouco e talvez mórbido:
-- Me casei.
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