quarta-feira, 2 de julho de 2008

Manuel tinha um vício absorvente: gostava de jogar na loteria chinesa e, além disso, o seu jogo apresentava uma fraqueza mortal: a fé num sistema; e isto tornava certa a sua perdição. Porque acreditar num sistema exige dinheiro, e o salário de um ajudante de jardineiro mal chega, na verdade, para cobrir as necessidades da esposa e da prole numerosa.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Reencarnação

Posso vê-los, como eram ingênuos, nem sequer podem imaginar como vão se magoar, como vão dizer coisas que nunca sequer pensariam, vão se agredir, pensar em divórcio, se divorciar, reatar, reentrar sempre pela porta dos fundos do mesmo ciclo vicioso, o amor, ou todos os sentimentos que quando juntos, este nome os tem atribuídos; vão ter filhos e quando os tiveram, vão pensar que se amam, após isto, vão apenas descobrir que só amam os filhos e logo após isto, vão descobrir, talvez com a maior dor que possam sentir, que não amam os filhos, talvez somente eles mesmos, ou talvez nem isto.

Todos os sonhos, todas as lendas contadas sobre as grandes paixões, o amor, os filmes, músicas, livros, todos os contos, todos os poemas e confidências contadas a respeito vão crivar-lhes a mente, e num tom cortante vão levá-los ao ódio, e este será crivado nas pobres crianças, que apenas sem poderem se defender, vão chorar.

Gostaria, exatamente agora, poder sacudi-los e dizer o quanto estão errados, não façam isso, não tenham filhos, não continuem, vão sofrer, causar sofrimento e no fim vão se odiar e odiar a vocês mesmos; os filhos serão o fruto resultante do cultivo despreparado; porém neste ponto eles ainda não sabem disto, e se alguém puder alertá-los, eles vão trocar promessas sobre como isto nunca acontecerá, ou sobre como o sentimento que eles agora mantêm eterno será.

Por favor, não façam isto, não se machuquem, se acreditam em um deus, implorem para impedi-los.

Mas não, vão continuar, vão refazer os passos que todos fazem, constituirão família, ou seria despedaçarão pessoas?

Qual o limite? Agressão? Dor? Morte? Talvez, neste mundo de amor e ódio, não haja limite, e talvez também por isto, deformidades como todos nós insistem em recomeçar uma vida e seguir os mesmos passos falhos de todas as outras vidas.

Por favor, não posso sacudi-los, mas parem agora.

domingo, 22 de junho de 2008

das entrelinhas do contrato

Recostado sob o sofá estreito, com o pescoço a curvar-se, fazendo seu queixo quase que tocar o peito, sentia a orelha esquerda queimar um pouco ; outro final de semana, aquela mesma ligação de todos os finais de semana, era feliz com isto.

Dentre as milhares formas de identificação, sobre todos os novos velhos assuntos, as religiões, as fraudes intelectuais, a decadência, nós: os macacos, poderia ter abordado sobre qualquer tema, que sugerisse uma conversa longa e amistosa e voraz; a voz do outro lado da linha também o esperava, depois das sempre perguntas, “como vai? como anda o trabalho?” - viria o prazer dominical, antes poderia ser o buteco do fim de semana, o beijo, o sexo, as músicas, porém, de não menos valor, os domingos eram mais felizes com uma voz.

Respirou um pouco, ajeitou-se sobre o próprio corpo, esperou até a conclusão da última afirmação vinda do telefone e então:

-- Aos vinte e dois, o que esperava da vida? - Silêncio, talvez por dois ou três segundos, um tempo muito maior do que já havia esperado desta mesma voz, pensou que talvez teria tocado no ponto no qual, até ele mesmo ameaça se perder.

Breve silêncio, ouviu-se o som do coçar a garganta e então, pesadamente prosseguiu a voz:

-- Vinte e dois, então, aos vinte e dois e frise bem, aos vinte e dois anos, diante todos os questionamentos, todas as escolhas, todas as opções, todas as fugas, fiz apenas o que destinaram a mim, como que com rédeas eu apenas assenti aos comandos que me eram ordenados, os executei, maestralmente, a cada nota eu cavava e embora não tenha esquecido de mim mesmo, apenas me tornei uma anulação dentro de uma capa exteorizando milhares de razões enfáticas.

Três segundos, somaram-se seis então, o telefone se fez mais quente, tentou balbuciar algo, em vão, tentou respeitar o silêncio que ouvia, não pôde resistir, ameaçou quase uma pergunta, mas não houve necessidade.

Em claro tom, rouco e talvez mórbido:

-- Me casei.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

o crente

Contando os passos soltos, pé por pé, notando a cada brisa quebrada pelos veículos em ritmo constante naquela manhã, o quanto necessitava de tudo aquilo; toda a colméia humana era harmônica, pensou na blusa que vestia, e em todo seu percentual de algodão, alguém plantou aquele algodão, alguém o fiou, outro alguém traçou, cortou, costurou – mágica – a blusa com percentual em algodão estava em seu corpo – deliberou sobre sua calça, seu tênis e sobre todas as coisas e padrões delimitados por sabe-se quem, talvez por ele mesmo.

Dentre todos os apetrechos enganchados em seu corpo deu maior atenção a algo por baixo de sua blusa com percentual em agodão, escondido por lá havia um tipo de cartão em PVC, com algumas formas geométricas a figurá-lo, preenchendo um retângulo no canto superior direito havia seu rosto, abaixo um código de barras, e todas as formas e padrões se acotovelando naquele pequeno cartão; mais aterrorizante era constatar que tudo aquilo estava pendurado em seu pescoço estampando seu peito. Tentou não pensar a respeito, mas enfim, seu pensamento sempre o traia, ainda naquele cartão havia seu nome, que quando nascera foi cravado em um pedaço de papel que hoje dizem a ele ser a prova, sim, a prova de que ele mesmo existe, enfim, não basta estar vivo, necessitava estar catalogado, sistematizado e doutrinado - voltando ao cartão, já sabia seu nome, seu rosto, e até quando nascera, abaixo de seu nome, algo mais surpreendente, não era mais o nome que o identificava, mas sim uma função, um cargo – doutrinado, sistematizado, catalogado – retirou os óculos, esfregou os olhos, o passo continuava, o ritmo acelerava;

O cartão agora incomodava um pouco, seu material não parecia mais PVC, talvez o fosse mutável, afinal, o parecia mais denso e o pescoço ficava a curvar-se, o deixando um pouco corcunda até.

O que fazia? O que aconteceu com suas ideologias, o que aconteceu com o garoto que iria mudar o mundo?

O passo acelerado deu lugar a passadas largas, o coração ritmado batucava forte, correu, pulou uma poça, desviou de uma bicicleta, adentrou por um portão, girou a porta giratória, “tonteou-se”, retirou o cartão do peito, enfiou-lhe numa máquina, a mesma devolveu-lhe um apito, recostou-se sob a parede, respirou aliviado, era seu primeiro dia em seu primeiro novo emprego, estava exausto, mas chegara a tempo.

Bom dia; bom dia, bom dia – doutrinado, sistematizado, catalogado.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

machuca

Sentado em sua cadeira estofada, revestida em couro Nobuck, enfiado piedosamente em seu terno cinza médio pro escuro, sapatos polidos, cabelos empapados repartidos para o lado correto, óculos leves, e um belo relógio rolex cestello, ninguém poderia dizer, mas era uma imitação quase perfeita, não apenas do relógio.

Olhou ao redor, um ambiente vitral, frio, cortante; pensou a respeito, porém o pensamento foi abruptamente interrompido com a visão de seus arquivos, a direita de sua mesa espaçosa, combinações perfeitas de pastas, enumeradas, etiquetadas e organizadas por cores e tamanhos, sentia-se reconfortado, estava tudo sob o mais perfeito controle, absolutamente harmônico;

Recolheu o olhar, e o tropeçou no porta retratos, sim, tinha uma bela mulher, rosto desenhado, seios firmes, e transavam freqüentemente, gostava da ausência de pêlos naquele corpo branco e curvilíneo, gostava do sexo, porém, só conseguia pensar no momento logo após o orgasmo, vazio, inquietante, a solução sempre era levantar e acender um cigarro, mesmo o gosto não lhe agradando, uma breve fuga.

Olhou novamente suas pastas – cromo terapia – mais alguns relatórios e estaria livre para retornar ao seio de sua família, e mais uma vez trepar e sentir-se esvaído, nada.

Range a porta, a maçaneta gira por cento e oitenta graus, escuta-se o salto sob o assoalho em tábua corrida, perturbação não era a palavra correta, mas era a única que conseguia associar; Natália, este era o nome, tinha feito de sua mulher um tipo de boneca barbie, bonita de olhar, terrível pra tocar, sentiu-se mal, só da cintura até o crânio, todo o resto pulsava.

Os olhos voltaram-se para as pastas, cores, vermelho ruge, amarelo sol, azul bebê – estão aqui os relatórios, tomei a liberdade de dividi-los por prioridade – dizia Natália;

Não olhou para as pastas, nem paras as cores, ao menos para os bicos ressaltados sobre a roupa de Natália, olhou para dentro de si, não enxergou, fechou os olhos, os esfregou; constatou – morto!

Levantou-se sobre os sapatos polidos, derrubou a mesa, atravessou a porta, venceu as escadas, encontrou a rua e correu, correu;

Não era suas roupas, não era os sapatos, ou o relógio, menos a cadeira estofada, neste momento não tinha mulher, não tinha secretária, ninguém não era exatamente a palavra, contudo era a única que poderia associar. Não era mais morto, era vivo, acelerou em passadas largas, não chegou a lugar nenhum, porém, chegou a si mesmo.

Sentou-se sobre o asfalto quente, repuxou a barra das calças que o ostentavam, chorou, apertou os punhos, queria morrer, mas estava vivo.